Olho para ela e não dá para acreditar. Parece que estou a viver um sonho mau.
É o mesmo rosto bonito, olhos grandes, castanhos, expressivos. Mas a cara afilou, o corpo quase desapareceu numa magreza incrível.
Estou diante da minha querida amiga, em fase terminal duma doença inexorável, até não sei quando...
Só Deus sabe.
Cuidados paliativos do IPO, verdadeiro hotel 5 estrelas, para quem já perdeu a esperança de viver e aguarda o fim.
Estreito-a e beijo-a com jeitinho, por causa do tubo de alimentação e converso, pergunto, pergunto...O filho vai lá dormir alguns dias da semana, o marido passa lá os dias.
Entretanto, o telefone toca imensas vezes, amigos e família acarinhando-a.
- Queres dar uma voltinha?
- Não, já hoje fui...Mas está bem!
Sai da cama e pelo pé vem sentar-se na cadeira de rodas.
- Queres ir a 50 ou 100???
Ri-se...
-A 50...Assim está bem!!!
Dirigimo-nos para uma salinha e olhamos através da janela para a cidade iluminada.
Algumas plantas, bem tratadas, decorando a saleta, em tons de azul.
Passamos depois por uma sala maior, de visitas, com sofás azuis. Um quadro com girassóis de Van Gogh chama-me a atenção.
- Julinha, quando olhares para aquele quadro, pensa em mim...
Ri-se...
- Olha um quadro de Matisse, uma colagem, gosto tanto! - digo eu.
Percorremos um corredor enorme e olho de soslaio para os quartos.
O coração aperta-se, pensando no sofrimento, angústia e desespero das pessoas que avisto deitadas.
Voltamos para o quarto.
Chega o jantar, trazido por uma enfermeira extremamente carinhosa. Sôfrega, levanta a tampa. Canja, salada russa, maçã assada.
Começa a comer a canja, mastiga e deita fora. Apenas para sentir o sabor dos alimentos. Quase nada retém dos alimentos normais, apenas iogurte e cevada.
Conversamos mais um pouco, acaba o jantar.
- É o meu karma...diz ela.
Aceita tudo com muita calma, com uma enorme coragem.
O pescador desfolha uma revista. Sei que está a fazer um esforço enorme para se manter calmo.
Despedimo-nos, até um dia destes.
Saímos para o exterior e finalmente as lágrimas rebentam num choro silencioso.
Já não tenho que ser forte, já não tenho que brincar com a minha querida amiga, rir com ela, aproveitar os momentos que restam.
Não, não me digam, por favor, que não querem VIVER!
(Imagem da net)














































