16 maio, 2006

Ecos de Macau I


É como um eco...
Ainda não desliguei daquela terra, continuo a pensar na sua riqueza cultural e quero partilhá-la. Ficarei ainda algum tempo neste maravilhoso limbo, cá e lá...
Espero não vos maçar...



Ainda não tinha falado de pintura e escolhi novamente Fernanda Dias, pintora portuguesa, residente em Macau desde 1986. Começou a sua carreira como gravurista, tendo paralelamente publicado poemas e contos. Expôs os seus trabalhos principalmente no Oriente, Macau, Taiwan e Hong Kong são bons exemplos.



Escreveu:


Pintar em Macau


Cheguei a Macau em 1986, e desde o primeiro momento a cidade me seduziu.Nas paredes dos velhos bairros estavam escritas histórias dos tempos idos, sobrepostas como camadas de uma pintura cuja cor e textura espantavam pela beleza plástica.Por outro lado, a arte moderna teve sempre em Macau intérpretes admiráveis, cuja actividade muito tem contribuido para o prestígio da nossa cidade nos meios culturais da Asia e da Europa. Sem citar nomes, de todos conhecidos, que tornariam extensa esta breve nota, devo dizer o convívio e a amizade desses artistas, sem distinção de origem ou nacionalidade, me tem encorajado a prosseguir o meu trabalho como pintora, depois de cerca de dez anos dedicados à gravura.O tempo da pintura são as horas roubadas ao lazer, pois antes de mais , considero-me professora, e a essa tarefa me dedico prioritariamente. A pintura, tal como a poesia, faz parte do meu modo de expressão, como se se tratasse de um diário de cores e imagens...


Fernanda Dias
Macau, 19 de Junho de 2003


volta amor, o natal passou,
já guardei os anjos na gaveta.
e o crespúsculo,
cada dia mais longo
ostenta um pomo de oiro
redondo como um seio de fogo
sobre o monte da Penha.

já é tempo, regressa.
está tudo como dantes,
mas cada pé de orquídea
esconde um gomo novo.
promessa de uma flor.

os anjos na gaveta, Chá Verde - Fernanda Dias


(Quadros de Fernanda Dias e texto tirados da net)

15 maio, 2006

Até à vista, Macau!



Desta vez não chorei...
Apenas umas lágrimas teimosas, quando viajava no “TurboJET Sea Express” (jetfoil) de Macau para Hong Kong, ao ver a cidade afastar-se no horizonte, na sua luz de mil cores...Sequei-as rapidamente, pensei que tinha sido muitissimo abençoada, ao passar todo aquele tempo, vendo a família reunida, usufruindo a sua companhia e ao mesmo tempo gozando as delícias de estar numa terra onde me sinto bem! Pedir mais? Não...
Estava vento, o mar agitado, o jetfoil balançava, por vezes parecia que ia levantar vôo...Não enjôo, até gostei de ser embalada, precisava até...!!!!




Para afastar pensamentos menos bons, peguei num livro que tinha escolhido para ler na viagem, Chá Verde da pintora e poetisa Fernanda Dias, uma alentejana que chegou a Macau em 1986. Com um prefácio espectacular de Yao Jingming, outro grande poeta de Macau, professor universitário.
Na primeira página estavam escritas estas palavras de Yaun Mei, que inspiraram a autora:
" ...
bebo lentamente, em busca do sabor para além do sabor, o aroma ainda perdura na taça já vazia." ( Yan Mei, a prova de chá, 1786)

E fui lendo:


chá: esse outro meu coração verde
que fora do meu peito pulsa.
ritual de silêncio, amargo e quente,
que te dou a beber em cada taça

Definição, Chá Verde - Fernanda Dias

o sol cai, ouro líquido,
nos lagos de Nam Vam.
o céu atrás do leque de água
jade e nácar na neblina.
o chá verde, um aaroma;
e a música que fazes,
rosto e timbre da tarde.

Exaltação das Tardes, Chá Verde - Fernanda Dias

e para que o perfume da rosa não nos sufocasse
com o seu mistério antigo e decadente
os deuses deram o sabor às lichias
a cor aos lótus, e essa frescura acetinada e dura
ao opulento jade do teu peito.

Sonho de Primavera, Chá Verde - Fernanda Dias


Depois, consegui dormir no avião, entre Hong Kong e Paris, coisa rara...Perdi o avião em Paris por minutos, juntamente com tantos outros que iam para tantos lados...Apanhei o avião a seguir, perdi as malas...Esperei pelo avião seguinte e...encontrei-as...Para quê desesperar???? Tudo tem solução, mais vale ter calma!
Aprendi mais uma lição, que já é a segunda: nunca ficar com apenas 45 minutos para apanhar a ligação no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris...Menos de hora e meia ....só para atletas de alta competição...!!!!

Eu senti que ia ter um enfarte...!!!!!! Pô...!!!!

Os amigos que nos aguardaram no Porto com tanta paciência, trouxeram-nos para casa, no meio de conversas e mais conversas, que todos adoramos, principalmente de viagens e especialmente de Macau, que já pisaram por duas vezes e...até já nem se importavam de voltar a visitar outravez!!!!
As duas gatas fizeram-nos grande festa...Será que se sentiram traídas?
O galo cantou à nossa chegada...Sinal de boas vindas?
A casa estava arrumada, limpa, acolhedora. Depois, estendi-me no sofá, a olhar para o écran da TV, estafada. Adormeci e só acordei agora...
Daqui a pouco estarei a trabalhar, renovadas as energias, coração a transbordar.

um livro, a luz, as persianas
flores de outras latitudes
o corpo estupefacto pois ainda sobrevive
ao espanto ao abandono à fluidez das coisas
tudo flutua como apagados astros
um papel, os pincéis, aguarelas
horas que se esgueiram para os álbuns,
serenos disa ilustrados...

Dias Ilustrados, Chá verde - Fernanda Dias
A todos os que por aqui passaram e me acompanharam nesta viagem, quero deixar um abraço apertado, esperando ter contribuído para mostrar e valorizar Macau, terra acarinhada e desenvolvida por portugueses, macaenses e chineses, hoje orgulho de todos, pela sua beleza, costumes e rico património cultural.
Beijinhos
(imagens da net)

12 maio, 2006

Os poetas de Macau


Macau - Kevin Jenne

Comprei vários livros de poesia, curiosa por conhecer a obra dos poetas desta terra e a forma como a cantaram. Existe apenas uma livraria portuguesa...Isto é que nos deveria envergonhar!
Mas tem os livros mais recentes dos escritores portugueses e estrangeiros e daqueles que fizeram de Macau a sua cidade, tendo aqui nascido ou vivido por tempo mais ou menos longo.
A Antologia de Poetas de Macau, edição do Instituto Camões, de 1999, reune vários poetas que se destacaram nesta terra longínqua.
À cabeça, vem Camilo Pessanha...


"Camilo de Almeida Pessanha nasceu no dia 7 de setembro de 1867 na cidade de Coimbra em Portugal. Após formar-se em Direito foi para Macau, na China, onde exerceu a função de Professor. Acometido de Tuberculose e, segundo alguns estudiosos, viciado em ópio, o que contribuía para o agravamento da doença, retornou várias vezes para a Portugal para tratar da sua saúde. Essas viagens de pouco valeram, uma vez que o poeta faleceu em 1º de março de 1926 em Macau. Camilo Pesanha que é, sem sombra de dúvidas, o maior e mais autêntico poeta Simbolista português foi fortemente influenciado pela poesia de do poeta frances Verlaine.
Sua poesia, que influenciou vários poetas modernistas, como por exemplo Fernando Pessoa, mostra o mundo sob a ótica da ilusão, da dor e do pessimismo. O exílio do mundo e a desilusão em relação à Pátria também estão presentes em sua obra e passam a impressão de desintegração do seu ser. A sua obra mais famosa é " Clepsidra", relógio de água, que contém poemas com musicalidade marcante e temas até certo ponto dramáticos."

(fonte: http://www.mundocultural.com.br/index.asp?url=http://www.mundocultural.com.br/literatura1/simbolismo/pessanha.htm)

E um dos seus poemas...

Ao meu coração um peso de ferro

Eu hei-de prender na volta do mar.

Ao meu coração um peso de ferro...

Lançá-lo ao mar.

Quem vai embarcar, que vai degredado,

As penas do amor não queira levar...

Marujos, erguei o cofre pesado,

Lançai-o ao mar.

E hei-de mercar um fecho de prata.

O meu coração é o cofre selado.

A sete chaves: tem dentro um carta...

--- A última, de antes do teu noivado.

A sete chaves --- a carta encantada!

E um lenço bordado... Esse hei-de o levar,

Que é para o molhar na água salgada

No dia em que enfim deixar de chorar.

Canção da partida - Camilo Pessanha


Perguntaram-me se ficaria por cá...

Como se pode viver com o coração dividido? Não sei, o futuro é incerto quando pareceria certo e nada, a não ser a passagem para a outra margem, poderia alterar...Sinceramente, sinto que poderia ficar por aqui, reformada, podendo dar à minha neta e outros que viessem o carinho, atenção e tempo que teria, totalmente disponíveis ! O coração está com os afectos e atravessa oceanos e continentes, é certo. Mas precisa ser alimentado, como uma florinha frágil.

Planos, tenho imensos planos...Nunca páro de pensar em tanta coisa para fazer e tanta ternura para dar. Mesmo que o meu tempo acabe um dia destes, agrada-me acreditar que voltarei, para uma outra vida cheia de planos, ideias e carinhos.

O dia de regresso aproxima-se...E com ele, a separação da família.

Foi doce este tempo de reunião à volta do pescador, comemorando os seus 60 anos de vida, em terra de flores de lótus, frangipani, orquídeas, buganvilleas, acácias vermelhas.

Flor de Lótus

Beijinhos

11 maio, 2006

Macau, Património Cultural Mundial da UNESCO

Igreja de SãoPaulo

Desde o dia 15 de Julho de 2005, o Centro Histórico de Macau foi inscrito na prestigiada Lista do Património Mundial da UNESCO por unanimidade.


Largo do Lilau: quem bebe do Lilau, nunca mais deixa Macau...

“O Centro Histórico de Macau” é o produto único de mais de 400 anos de intercâmbio cultural entre o mundo ocidental e a civilização chinesa.Este património arquitectónico, predominantemente de raiz europeia, ergue-se por entre construções de arquitectura tradicional chinesa no povoado histórico, evidenciando um notório contraste. “O Centro Histórico de Macau” constitui o conjunto arquitectónico de raiz europeia mais antigo, mais completo e mais bem consolidado que ainda se mantém intacto em solo chinês.
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“O Centro Histórico de Macau” constitui uma representação ainda existente do povoado histórico que marcou os primórdios da cidade, envolvendo legados arquitectónicos entrelaçados no tecido urbano original da mesma, que inclui ruas e praças, tais como o Largo da Barra, o Largo do Lilau, o Largo de Santo Agostinho, o Largo do Senado, o Largo da Sé, o Largo de S. Domingos, o Largo da Companhia de Jesus e o Largo de Camões. Estas praças principais e ambientes urbanos estabelecem a ligação entre uma sucessão de mais de vinte monumentos, que incluem o Templo de A-Má, o Quartel dos Mouros, a Casa do Mandarim, a Igreja de S. Lourenço, a Igreja e Seminário de S. José, o Teatro D. Pedro V, a Biblioteca Sir Robert Ho Tung, a Igreja de Santo Agostinho, o Edifício do Leal Senado, o Templo de Sam Kai Vui Kun, a Santa Casa da Misericórdia, a Igreja da Sé, a Casa de Lou Kau, a Igreja de S. Domingos, as Ruínas de S. Paulo, o Templo de Na Tcha, a Secção das Antigas Muralhas de Defesa, a Fortaleza do Monte, a Igreja de Santo António, a Casa Garden, o Cemitério Protestante e a Fortaleza da Guia (incluindo a Capela e Farol da Guia), sendo conhecidos no seu conjunto como “O Centro Histórico de Macau”.
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Está tudo aqui: http://www.macauheritage.net/mherit/indexP.asp

Não estão incluídas estas....

Palácio do antigo governador


Casas da Taipa

Devemos sentir-nos orgulhosos, sim, da obra que deixámos aqui. Embora o português pouco se fale, sendo o inglês e o cantonês as línguas mais usadas, todos os monumentos que enriquecem a cidade de Macau são altamente apreciados pelos milhares de turistas, principalmente chineses, que visitam esta cidade e que a fotografam sem cessar...
É uma cidade muito bonita, com uma mística própria, onde em cada rua e esquina se observam costumes diferentes que enriquecem o nosso saber.
Nunca é demais observar e aprender!

Beijinhos

10 maio, 2006

Na Gruta do Grande Poeta!

Ao fim da tarde fizémos o caminho desde o Leal Senado ao Jardim Camões. Não é uma grande distância, mas o calor apertava, o ar estava abafado ...Foi difícil lá chegar!
O jardim está muito bem cuidado e depois de subir uma escadaria a muito custo, apareceu, iluminada, ao lusco-fusco, a gruta de Camões...
Gruta de Camões

Estátua de Camões
Inscrição dentro da gruta
Deixo-vos com as palavras dum poeta de Macau, Josué da Silva ...
Foste vendaval, crista de onda verde
Cuspindo sangrenta o desprezo pela vida,
Quando entre ti se interpunha a sede
De ires à lua, ou de espada à lida,
para dares à Grei à honra que precede
o ser primeira e sempre decidida

a soltar nos mares o grito de bravura
ao leme de todos os cabos da esperança,
que a terra era um sem pão de amargura,
um zé ninguém da dor e sem herança
capaz, pra dar aos filhos um algo de ternura
mesmo conquistado na ponta duma lança.

E serias tu, peão desavindo do poder,
Como cão atirado na lama do sistema,
quem na tua taura lira e em teu crer
em delírio, ofertava à Mãe suprema
a chama e a luz de se reconhecer
inteira, no canto universal do teu Poema.

Por fim aqui me encontro Insigne Varão
Nesta gruta tão triste e tão sombria,
Tentando nela haurir toda a paixão
Que obriga com que desta pedra fria,
Se oiça o palpitar de um coração
Que fez de Portugal, a alma da Poesia.

Camões a Oriente Triste – Josué da Silva (1930)
Beijinhos

09 maio, 2006

Macau Panorâmica!




Desta vez fui mesmo...
Já andava prometida esta subida à Torre de Macau, mas era necessário estar um dia limpo, com poucas nuvens, no mínimo!!!!
E assim ficou registado pela minha filha mais nova, que também voou até aqui para se juntar a nós...




Lago Nam Vam e Av. da Praia Grande
Assoreamento para novo aterro, do Hotel Lisboa até à estátua de Kun Iam

Isto já é China...

Tem um excelente buffet por 150 patacas (15 euros). Come-se bem e simultaneamente pode apreciar-se a vista em toda a volta, pois a sala é rotativa.
Uma experiência muito agradável, que recomendo vivamente!
Se tive vertigens? Não...Mas quando vinha com o prato cheio para o lugar...sentia que estava o chão a fugir-me debaixo dos pés...!!!!
No entanto, é uma experiência muito mais soft que os desportos radicais que por lá se praticam...!!!!
Beijinhos

08 maio, 2006

De Macau a Cantão...



Disseram-me os meus amigos, que nos levaram a Cantão, que esta viagem nos anos 80 levava 12 horas a fazer...Não havia pontes nos diversos braços do Rio das Pérolas, que banha Cantão e vai desaguar a Macau. Era preciso atravessar em vários batelões, imaginem!
Hoje, esta viagem é muito cómoda, faz-se sempre em auto-estrada, em duas horas, ar condicionado ( até se tem frio...), a paisagem é linda e diversa. Estava a chover...


Atravessam-se campos vastíssimos com bananeiras, hortícolas, arroz, viveiros de árvores e arbustos ornamentais.
O único problema está na fronteira: muitíssimo demorado o chamado visto rápido, e depois as filas para estrangeiros, com voltas e voltas aos passaportes...Pelo menos hora e meia a duas horas, a travessia de Macau para Zhuhai, com o tal visto para Cantão.
Cantão é uma cidade enorme, não muito diferente de uma cidade qualquer, com 8 milhões de habitantes...
A parte da cidade que nos prende mais é a Ilha de Shamin, com residências e empresas de estrangeiros, principalmente ingleses, onde os chineses não tinham permissão para entrar... Ainda hoje estas casas conferem uma arquictetura única, embora muito degradada e a maior parte das vezes mutilada com anúncios pirosos em néon...
As fotos que se seguem mostram-no...

Muitas das casas têm placas indicando a sua história...

Canforeira

Cópia da Capela de Lourdes

Só fiquei de um dia para o outro, mas gostava de lá voltar e fazer um cruzeiro pelo rio. Terá de ficar para a próxima...
Aqui está um dos Barcos do Amor para fazer esse passeio, vista do White Swain Hotel, o melhor hotel da ilha...Fomos apenas lá tomar café e a uma loja de antiguidades.

Vejam este interior do hotel tão kitsh...Cada dormida custa quase 100 euros.
Fiquei no Victory Hotel, 4 estrelas, antigo, muito bom, pertencendo aos mesmos.
A piscina deste fica no último andar, mas nem tive tempo de espreitar!
No dia seguinte, passeámos no jardim, junto ao hotel e vejam a que assistimos:
Professores ensinando danças de salão, pares dançando descontraidamente, valsas, paso dobles, cha-cha-cha, grupo cantando com um maestro já de idade, outros fazendo Tai-Chi com espada ou sem ela, outros ainda jogando com a pena de badmington, apenas com os pés, durante horas...
Estão a ver como eles se divertem sem gastar dinheiro, sem recorrer a psiquiatras, com imensa descontracção...Impossível de encontrar nos europeus, sempre com o fantasma do ridículo na tola...









As canas ao longo do rio sozinhas.... e os pescadores algures a descansar....Isto é que é pesca!!!!


As velhas árvores são escoradas para não cair...Respeito pela velhice, até das árvores!



Estátuetas de bronze, em tamanho natural, mostrando figuras cruzando Oriente e Ocidente
ENORME mercado grossista...o fim...!!!!!! Um labirinto, onde o calor aperta e os olhos se regalam com artigos de todos os géneros....
Bairro residencial nos arredores de Cantão, dum e doutro lado auto-estrada

Marginal de Zhuhai, no regresso, a chover... Tem km e km de extensão, com tudo ajardinado, bairros de moradias espectaculares, centros comerciais, universidade, tudo novo... Em grande desenvolvimento, já que as casas estão caríssimas em Macau.
E assim terminou o passeio, tenho ainda que vos contar mais um milagre...que me poupou um data de massa...
Quando cheguei ao hotel a Cantão, vi que tinha perdido os óculos ( lentes progressivas...No dia seguinte, a minha amiga informou-se junto das camionetas se tinham aparecido alguns óculos...Telefonema das moças hospedeiras para a central, enfim já ninguém esperava nada...
Quando íamos apanhar a camioneta de regresso, uma das moças fêz sinal à minha amiga, muito excitada...Tinha os óculos com ela e deu-mos!!!!!
Abracei-a e beijei-a de contente....Ficou surpresa, as outras riam!
Não sei fazer o responso ao Santo António, o Santo das coisas perdidas...
Mas de manhã, enquanto a minha amiga se esforçava por explicar a situação, eu pedia ao santo,como costumo fazer:
- Ó meu Santo António, tem pena de mim!Vê lá se me encontras os óculos que me fazem tanta falta e custam uma pipa de massa..Não me lixes..
Beijinhos

07 maio, 2006

Dia da Mãe...em Macau

A Todas as Mães, blogueiras ou não, quero oferecer esta Flor de Lótus, símbolo de Macau!!!


Hoje, Dia da Mãe, tive um presente especial das minhas filhas: um livro de poesia!
Não é um livro qualquer; trata-se de um livro escrito por Adé, José dos Santos Ferreira, chamado Macau di Tempo Antigo, em português e em patuá, dialecto antigo de Macau, também denominado Doci Papiaçam di Macau.
Quis partilhar convosco um dos seus poemas...

Poéma di Macau

Pa vôs, Macau quirido, pequinino,
Nésga di chám pa Dios abençoado,
Macau cristám, qui fórça di destino
Já botá na caminho alumiado;
Pa vês, iou pensá vêm co devoçám,
Rabiscá unga poema di amôr,
Enfeitado co vôs no coraçám,
Pa têm mercê di bénça di Sinhôr.
II
Tera qui nôsse Rê chomá lial,
Sômente unga: sã vôs, bunitéza,
Filo di coraçám di Portugal,
Alma puro inchido di beléza.
Iou querê vêm contá co sentimento,
Vôsso estória pa mundo uvi!
— Qui di péna fino? Qui di talento?
Ai, qui saiám Camões nom-têm aqui!
(..................................................................................... )

«Para ti, Macau querida, pequenina,
Nesga de terra por Deus abençoada
Macau cristão, que a mão do destino
Colocou no caminho iluminado;
Para ti, pensei vir com devoção,
Compor um poema de amor,
Contigo enfeitado no coração,
E assim merecer a bênção do Senhor.

«Terra que um nosso Rei chamou leal,
Só uma: és tu, graciosa
Filha do coração de Portugal,
Alma cândida, impregnada de beleza;
Quero vir contar com sentimento,
A toda o mundo a tua história!
Ah, que pena não estar aqui Camões»
........................................................................”


Com mais de trezentos anos, o patoá, conseqüência do falar lusitano deturpado pelo meio, era muito utilizado no século passado, inclusive pela elite. Nesse particular, a expulsão dos jesuítas, então responsáveis quase exclusivos pela educação, em 1762, por força da intolerância pombalina, prejudicou duramente o ensino do português, favorecendo o patoá.
Mais recentemente, o aprimoramento da administração portuguesa e do seu sistema educacional, a relevância do inglês como língua da próspera Hong Kong, além da influência cultural da circunvizinha República Popular da China, foram responsáveis pela decadênciada uso da língua macaísta.
Conhecido como a Doci Lingu di Macau, o patoá efetivamente perdeu a importância de outrora, mas a futura integração de Macau à República Popular da China não foi razão para isso: “Como acontece em todas as outras estruturas lingüísticas o dialecto de Macau (...) tem sofrido uma evolução, mais notória no actual século. Graças a vários factores e, nomeadamente, uma maior aproximação com a Metrópole e à acção dos metropolitanos, só restam alguns traços fundamentais do antigo crioulo, tanto na fonética quanto na morfologia” .
In A influência da cultura portuguesa em Macau. Rafael Ávila de Azevedo. Lisboa: Instituto de Cultura e LínguaPortuguesa, 1984, p. 6
Tenham um dia feliz, como eu...
Beijinhos