05 setembro, 2007

"O Sebastião"

O Sebastião era um cágado centenário que vivia alegremente em casa do Sr. Barbosa.
Quando este se reformou e regressou a Portugal, resolveu deixar o bicho à nossa guarda, com imensa pena da filha, só o soubemos mais tarde.
O Sebastião foi para a nossa casa na Matola e de imediato ficámos preocupados com o que lhe poderia suceder, já que era para aquela família uma relíquia !

Era um cágado enorme, de carapaça arredondada.
De velho, já não recolhia o pescoço, todo enrugado...
Daí o nosso receio, pensando que o nosso Leão, um boxer arraçado, lhe desse a dentada fatal !!!

O Sebastião andava feliz: percorria o jardim e arredores, deliciando-se com as flores que encontrava, para desespero da dona da casa…
Parecia um tractor!


Um dia acabámos por descobrir um facto que nos deixou boquiabertos.
O Sebastião e o Leão tinham-se tornado grandes amigos!
Todas as noites, o Sebastião dirigia-se à casota do Leão e dormiam juntos, muito encostadinhos…

A filha do Sr. Barbosa acabou por manifestar vontade de ficar com o Sebastião e a dona da casa não se fez rogada.
Daí em diante poderia voltar a ter flores no jardim!


(Imagens da net)

03 setembro, 2007

“A Ilha do Paraíso”





Assim era chamada a Ilha de Santa Carolina, uma das que compõem o Arquipélago do Bazaruto, no Oceano Índico, ao largo de Moçambique.
Era um dos destinos preferidos dos casais em lua de mel, hoje abandonada à sua sorte.
Ah, se aquela ilha falasse....

No colégio resolveram fazer uma excursão à dita ilha.
Pediram-se dois “machimbombinhos”(mini-autocarros) Mercedes vermelhos, aos Serviços de Viação (SMV) e lá fomos, todos entusiasmados!




A viagem era longa, cerca de 780 km até Vilanculos e depois a travessia por barco. Feita em dois dias, com uma paragem para pernoitar em Zavala.

Lagoas de Zavala (Quissico)

A viagem, depois de Inhambane, em estrada de terra batida e época de chuvas, foi uma verdadeira aventura!
Os “minibus” portaram-se bem, ziguezagueando para fugir às covas e entrando e saindo das poças de água na estrada até que...

A estrada estava toda inundada, sem se saber a profundidade.

O primeiro autocarro entrou e passou.
O segundo, onde eu ia, entrou e lá ficou!!!!!!
Uma galhofa, tudo a empurrar!

Porfim lá se conseguiu retirá-lo da água.
Mas andar? Tá quieto....Tinha ficado engasgado!

Faltavam ainda uns 30 km para Vilanculos.
O primeiro autocarro foi buscar socorro, nós ficámos na seca, a torrar...
Só no dia seguinte conseguimos rumar à ilha, já cheios de impaciência!

Depois...


Foi uma semana de verdadeiro paraíso, instalados nos apartamentos do hotel, desfrutando as belissimas paisagens, tomando banhos e banhos em águas quentes e cristalinas.



Ilha do Paraíso, nome bem merecido.

Para mim e para aqueles que a pisaram, inesquecível!

02 setembro, 2007

"O Luna Parque"

Um grande parque de diversões, com barraquinhas de tiro ou arremesso, algodão doce...
Todos os anos lá voltava ao mesmo local, para a alegria da garotada, jovens e adultos.
Num recinto vazio, ao fundo da Avenida da República, ao lado da Fazenda, na baixa moçambicana.


Carrossel, roda gigante, comboio fantasma, montanha russa, chicote, polvo, cadeirinhas voadoras, aviões, carrinhos de choque, foguete, poço centrífugo e o mais temido de todos, o torpedo!





A paciência do meu progenitor não tinha limites, acompanhando-me com entusiasmo nestas incursões, algumas vezes divertindo-se também a andar comigo.
Comprava montes de bilhetes, distribuindo pela criançada, que corriam felizes, apressando-se a usá-los.

Pela minha parte, atrevia-me a andava sozinha em quase tudo.
Os meus preferidos?
Sem dúvida, os carrinhos de choque, os aviõezinhos e o polvo!
E o meu pai olhava feliz para a sua petiza risonha, intrépida, pensando talvez daquela forma minimizar o vazio sentido pela recente perda.

Durante muito tempo, já jovenzinha, continuei a frequentar o Luna Parque, mas havia algo em que não me atrevia a entrar: o Torpedo!

Era constituído por uma barra vertical, com duas carlingas de avião em cada ponta, de costas uma para a outra. A barra movia-se circularmente e as carlingas também....
Imaginam? Ficava-se quase de cabeça para baixo...
E a velocidade ia aumentando lentamente até...se sair de lá aos tombos!!!!

Já na universidade, um amigo desafiou-me a andar no Torpedo.
E lá fui!!!
Percebo hoje porque o fiz: para testar a minha coragem e resistência, por me sentir fragilizada emocionalmente.
Repetir, nunca mais repeti, mas até nem achei tão mau como imaginava!.

Conclusão:
Existem alturas na nossa vida que precisamos demonstrar a força que existe dentro de nós.
E a recompensa desse simples acto de coragem pode ser fantástica!

01 setembro, 2007

“A cicatriz”


Em frente a Lourenço Marques, hoje Maputo, do outro lado da Baía do Espírito Santo, fica a Catembe, donde se avista uma bela panorâmica sobre a cidade.




Mas o passeio valia pelos bons camarões, sesta na praia, de barriguinha confortada e por último uma banhoca no mar.
Atravessava-se de barco, talvez demorasse meia hora, se bem me lembro.

Praia da Catembe
Num desses passeios, ao entrar na água, senti que tinha qualquer coisa no pé direito.
Rapidamente a água ficou vermelha…
Tinha pisado um fundo de uma garrafa partida!

Embrulhado o pé em toalhas, uma aflição por causa do sangue perdido.
A espera pelo barco, sempre ao colo, a viagem de regresso, o banco de urgência do hospital.

Imagens bem vivas na memória.


Cais de embarque - Catembe

O golpe era fundo, levou vários agrafos, chamados “gatos”.
Era o que se punha naquele tempo!
Não me lembro de ter chorado grande coisa, sempre fui valente.

Mas quando olho para o pé direito, lá está ela, na planta do pé, a grande cicatriz, feiosa, torta, para me lembrar deste episódio bravo dos meus tempos de infância.

Vale a pena manter as praias limpas…
Para que episódios como este não aconteçam.

31 agosto, 2007

"O Cessna"

Lembro-me de ouvir na rádio e ler a notícia.
Tinha desaparecido uma avioneta “Cessna” pilotada por um americano...

Recordei imediatamente a viagem feita nessa avioneta da Beira ao Luabo, em Moçambique, para resolver qualquer problema referente a avarias eléctricas, na fábrica da “Sena Sugar Estates”.
E lá fomos, pai e filha, mais uma vez, no avião vermelho e branco com o piloto americano.


Cessna


Tenho de ser sincera e dizer que, apesar da pouca idade na altura, apenas 10 anos, eu tinha bastante coragem e gostava de “aventuras”.
Não havia dúvida que aquilo para mim era uma aventura...
Voar numa avioneta!

O piloto, muito simpático, sobrevoou manadas de búfalos escondidos por “garças boieiras”, que à nossa passagem levantavam voo formando uma nuvem branca muito extensa...
Estava maravilhada!!
Para mim era um espectáculo completamente novo!


Ao longe começaram a desenhar-se nuvens muito negras, sinal da aproximação de forte tempestade e chuvada.
Percebeu-se a preocupação do piloto, que nos explicou que iria fazer um desvio, ladeando o temporal pelo mar.
E assim, dum lado tínhamos o céu escuro, ameaçador e do outro, sol , muito sol e praias de areias brancas e águas azuis...

Pensei algumas vezes, quando soube do desaparecimento, que provavelmente o piloto não teria tido a sorte de escapar a qualquer intempérie...
Como tinha acontecido daquela vez!

Mas o mais certo foi ter-se posto ao fresco, dada a situação complicada naquela parte de África….!!!!
Acredito mais nesta versão…

30 agosto, 2007

"A Negrita"

Ainda vivemos dois anos sozinhos, o meu pai e eu, antes de se tornar a casar.
Íamos frequentemente a Johanesburgo para comprar material eléctrico para a oficina.

De regresso duma dessas viagens, na região da Moamba, em Moçambique, avistámos na estrada um ponto negro e o meu pai foi abrandando até parar.
No meio da estrada estava uma cabritinha preta com as patas brancas que gritava como uma desmamada!

Devia ser recém-nascida pois ainda tinha cordão umbilical...
Olhámos à volta e não vimos vivalma; o meu pai resolveu pegar nela e levá-la connosco com medo que a atropelassem.

Vivíamos nessa altura num 1º andar e a casa tinha uma varanda a toda a largura, com uma belíssima vista para a baía.
Foi nessa varanda que depositámos a cabritinha.
Chamei-lhe “Negrita”.



Foto da net

A Negrita foi crescendo alimentada a biberão com todos os mimos, tornando-se um animal muito meigo, como se fosse um cãozinho.
Gostava tanto dela que, quando teve de sair de casa, fiquei muito desgostosa…

Foi para a oficina onde andava em correrias, com mais de 5000 m2 para explorar! Todos os empregados se afeiçoaram à Negrita.

Quando eu chegava ao portão da rua e a chamava, corria para me cumprimentar no seu alegre “méééééééé” ...e era uma festa para as duas!


Um dia a Negrita partiu um cornito numa polidora e enfaixaram-lhe a cabeça. Ficou linda mas não melhorou e teve de ser abatida para acabar com o seu sofrimento.

Durante muito tempo evitei aproximar-me da oficina.
E quando por fim consegui lá voltar, parecia ainda ouvir ao longe:
- “méééééééée”...

29 agosto, 2007

"Os caranguejos"


Em 1966 entrámos vinte para o curso de Agronomia, o que constituía um recorde!
A meio do ano resolvemos fazer uma viagem de estudo à ilha da Inhaca, situada a 35 km do Maputo, integrada na cadeira de Biologia.


Chaimite

Viajámos num rebocador, ficando alojados nas instalações da Estação Biológica Marítima.
Na segunda noite depois de algumas incursões pela ilha, banhos de mar e passeios à beira-mar, deitámo-nos estafados. Estávamos quatro raparigas num quarto e a luz só durava até às 11 da noite, altura em que era desligado o gerador.

Começámos a ouvir um barulho esquisito que vinha debaixo das camas...
O chão era de cimento e pelo som que faziam pareciam caranguejos....
Gritos histéricos, risos, uma barulheira!


Chamámos os rapazes que, de pronto, vieram todos divertidos de nos terem assustado e levaram os bichos.
Caíu o silêncio, tudo calmo, às escuras.
De repente, uma voz gutural exclamou de modo teatral:
- " Agora já posso sair"!
Desatámos a gritar novamente, mas percebemos que era a voz do Guedes P., que tinha ficado escondido atrás da porta e como estava escuro não o vimos!
Saiu porta fora cheio de gôzo de nos ter pregado outro valente susto!
Só então reparámos que a voz da Sónia não se tinha feito ouvir.
Chamámos por ela: "Sónia, Sónia, estás aí?"
Nada, nenhuma resposta...
Desci da cama e fui ter com ela, mesmo ao meu lado.
Estava em estado de choque, quase não falava!
Percebemos que não queria ficar no quarto...nem em qualquer lugar fechado!
Não tivémos outro remédio senão pegar nos cobertores e dormir ao relento, na varanda do refeitório; tapámos a cabeça com os cobertores e durante toda a noite ouvimos o zunir dos incansáveis mosquitos numa melodia infernal!
No dia seguinte , as marcas das ferroadas dos Anopheles mostravam, de facto, como tinha sido acidentada aquela noite passada na bela e inesquecível Inhaca!

28 agosto, 2007

"O Amor"


Lourenço Marques/Maputo (1975)

O meu pai foi para Moçambique, em 1950.
Tinha uma oficina na Figueira da Foz, até estava bem de vida!
Mas os homens, naquele tempo, perdiam a cabeça por um rabo de saia...


Assim, para castigo, foi empurrado para África pela minha progenitora!



"Pátria"

Só lhe posso agradecer por essa decisão radical, já que me deu a oportunidade de conhecer um continente mágico, do qual ainda hoje sinto tanta saudade…
Adiante!

Ele tinha, nessa altura, um criado chamado “ Amor”.
Será interessante pensar como seria comprometedor quando lhe pedisse algo:
- Ò Amor, traz isto...
- Ò Amor, faz aquilo .....

Tinha alguns amigos pescadores e de tanto ouvir as suas histórias quis experimentar pescar.
Comprou todos os apetrechos: cana, carreto, anzóis, linha, isca.
E lá foi para a doca dos pescadores, levando consigo o Amor.



Iscou o anzol e lançou a linha....
Como não conseguisse ver onde tinha ido parar o anzol, chamou:
-
Ò Amor , viste o anzol?
- Tá aqui! - disse o Amor, mostrando o dedo polegar trespassado pelo anzol...

O pretenso pescador é que ia desmaiando...
Serviu-lhe de lição: foi a primeira e a última vez que foi à pesca.
Em toda a sua vida, o único “peixe” que pescou foi o dedo do Amor!

“Os tate-bitates”

Lembrei-me duma história que se passou em África, era eu uma jovenzinha universitária muito tímida.

Disseram-me que em pequena tinha uma boa dicção, falando fluentemente, sem dificuldade.
Até achavam que poderia ser locutora da rádio!

Depois do desaparecimento da minha mãe, os problemas começaram com a fala.
Gaguejava muito, principalmente quando me enervava.
Queria falar muito depressa, mas os sons não saíam correctos…

Frequentava o 1º ano da universidade e continuava com o mesmo problema: Gaguejava...e quanto mais enervada estava....mais gaguejava!
A situação era grave : chegava a percorrer distâncias enormes a pé para evitar pedir o bilhete de autocarro ao cobrador....
Provas orais? Nem pensar! Procurava dispensar delas, claro!


Vendo o meu desgosto, o meu pai resolveu arranjar-me ajuda e fui parar a um departamento da universidade sul-africana, em Johannesburg, a uma consulta de “terapia da fala”.

Nessa altura, a minha irmã mais velha residia ali e acompanhou-me decidida á primeira consulta.
Fizeram-nos entrar para um gabinete com um espelho que ocupava toda a parede e imaginei logo uma turma de alunos a assistir ao espectáculo!!!!!
Iniciei então aulas com uma terapeuta.
Mas se gaguejava na língua natal, imaginem em inglês…

Ao fim de algumas aulas percebi que o método utilizado consistia no seguinte:
Ao ter dificuldade em pronunciar um som, geralmente os “malvados” pês, tês e qês, teria de repetir esse som tantas vezes até sair sem dificuldade....
Um martírio!

Certo dia a professora resolveu apresentar-me a outros “ tate-bitates”.
Conduziu-me a uma sala onde estavam vários rapazes e raparigas.

Um rapaz dirigiu-se a mim e apresentou-se delicadamente:
-“Mymymymymymy……..nananananamemememememe……iiiiiiiiiiiiiiiiiiis…… JOJOJOJOJOJOhnhnhnhn.....

Fiquei a olhar para ele e percebi naquele instante que, afinal, eu não era tão gaga como pensava!
Dei meia volta, desisti das aulas e acabei por me conformar!!!!!!

Hoje...sim, ainda derrapo nas palavras...mas menos!

27 agosto, 2007

“Plantadora de imagens e sentimentos”…


Assim me chamou, num comentário, alguém por quem nutro forte admiração e empatia aqui na Blogosfera, mesmo sem nunca a ter visto pessoalmente.

Que, com mestria, escreve, desenha e me encanta com os relatos das suas viagens, partilhando com amor o que o seu olhar conhecedor alcança e desfruta.
Obrigada, Helena, gostei muito que me tivesses chamado assim.

Não ser apenas um simples girassol, que tenta contagiar com a sua energia e emoções os que por aqui passam, visitam ou ficam sempre.
Mas uma “plantadora de imagens e sentimentos”.
Interessante…

Vou dizer porquê.



WOMAN WALKING IN AN EXOTIC FOREST - Henri Rousseau (1844-1910)




Tenho-me perguntado muita vez porque segui Agronomia.
Além de ser uma belíssima aluna a Ciências Naturais, não demonstrava inclinação para mais nada. Nem nunca tive “dedo verde”…

Como não queria ser professora de Biologia porque gaguejava, acabei por achar que a Agronomia iria ser algo que me permitiria seguir a minha inclinação para a Botânica e matérias afins.

Hoje compreendo que existe muito mais do que uma carreira para alguém que queira fazer transbordar a sua taça e percorrer outros caminhos, igualmente enriquecedores.
No dobrar da fronteira dos 60´s, novos horizontes se estendem em que conhecimento e emoções andam de mãos dadas para saborear novas aventuras.

Para ti, Helena, este esquisso que adoro.
Ou não fosse de Matisse.




“Em todo poema de Matisse há a história de uma partícula de carne humana que rejeitou a consumação da morte.”(Henry Miller, em “Trópico de Câncer”)


24 agosto, 2007

Encosta-te a mim...

Rodin

Encosta-te a mim... canta magistralmente Jorge Palma.

.......

Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.
........

Não sei porquê, apeteceu-me lembrar este poema cantado, já muito visto em vídeo.
Será talvez porque me acalma sentir o toque suave, o calor do braço no meu.

Tantos anos, tanta vida, tanto amor.
Tanto desamor, tantas quezílias, tantas lágrimas.

Não foram cem anos, é exagero, como diz Jorge Palma...
Foram os suficientes para formar um elo - um sem o outro - um com o outro - um mais o outro - um para o outro.

Para que se murmure baixinho:
- Encosta-te a mim...

23 agosto, 2007

Férias V

O carro ficou guardado e esquecido no parque subterrâneo junto à marina, durante os dias ali passados em terras galegas.
Andar só a pé, de barco ou de autocarro.
Os pés ressentiram-se, as pernas também….
Mas a mente, essa, agradeceu!

Ás 4 e meia da tarde subimos para o autocarro turístico que nos levou à Fortaleza e à Praia de Samil, a zona de praias a pulular de gente encalorada.
Acabado o passeio, que durou duas horas, resolvemos fazer a travessia de barco para Cangas do Morrazo, uma terrinha simpática mesmo em frente a Vigo.



Às poetisas Licínia do Sítio do Poema e Otília do Menina Marota dedico este poema do poeta galego Pulpeiro:

¿Por qué o ceo máis limpo ao galego
lle párce afumado?
¿Por qué a terra frolida que manda
lle cheira a escamallo?
¿Por qué a iauga, hastra no ollo da fonte,
pra el ten sempre tasto?
¿Por qué sinte que a sangue sorenta
figura aburalo?
¿Por qué trema, dormente, e dacondo
somella ter rautos
?Porque está cos comenzos da febre
que aos probos deixados
fai perder a cabeza, i erguila,
dar fungueirazos,
cando pintan que poden gandilos
os corvos que, a bandos,
nunca faltan onde eles, famentos
seu coiro buscando…¡
Ogallá que nin un se lles lisque,
nin gordo, nin fraco!...
OBRAS COMPLETAS. Poesias (frag.)
Manuel Leiras Pulpeiro