31 janeiro, 2006

Histórias da tia Alice IV

Ficámos cerca de uma semana em Chateaulin. Corremos toda a região da Cornualha, à beira-mar, de grandes penhascos, horizontes sem fim.
Foi num passeio a uma dessas Pontas (Point de....) que nos aconteceu o impensável...
Saímos de manhã, ainda com algum nevoeiro, característico daquela zona, e dirigimo-nos para a Point de.... Estacionámos o carro no parque, onde já estavam muitos outros e, para não irmos carregadas, deixámos as carteiras no porta-bagagens.
Quando regressámos de olhar para as vistas e nada ver por causa do nevoeiro cerrado, verificámos que a bagageira tinha sido forçada e as carteiras tinham sumido!!!
A tia Alice ficou sem os documentos, eu sem algum dinheiro, documentos e cartão Visa. E o porta-bagagens danificado, pois não fechava...
Dirigimo-nos para a cidade de imediato para telefonar para Portugal a fim de nos cancelarem o cartão. Éramos tão pelintras que só tínhamos uma única conta e apenas um cartão para cada um nessa conta. Ficámos em pânico: que fazer? Regressar a Portugal ou tentar fazer uma vidinha ainda mais apertada de maneira a acabar as férias? Lá decidimos ficar.
Punha-se o problema agora de saber se os malvados ainda teriam tido tempo de utilizar o cartão para fazer compras...Tínhamos o credo na boca!
O nosso passeio continuou e desta vez percorremos a via sacra dos Calvários da Bretanha. No exterior de cada igreja nas pequenas vilas, encontrava-se um calvário em pedra, verdadeira obra de arte, contando a vida de Jesus. A minha tia e eu, com grande devoção, em todas elas acendíamos uma velinha e fazíamos um pedido: que não usassem o nosso cartão Visa!!!


Fizémos ainda mais uma digressão pelas Pontas...Em todas elas, no parque de estacionamento, estavam grandes avisos, chamando a atenção para os turistas se precaverem dos larápios e não deixarem nada à vista no interior dos carros.
Ficámos sempre com algumas dúvidas se não seriam os nossos vizinhos franceses da tenda ao lado...
Daí a algum tempo, quando chegou a conta do Visa verificámos com alívio que o nosso pedido tinha sido generosamente atendido...

30 janeiro, 2006

Histórias da tia Alice III


Felicity wishes XXIV - Ema Thomson


Estávamos acampados numa cidadezinha simpática da Bretanha, de nome Chateaulin. Junto ao camping passava um riacho, era muito calmo, embora estivesse bastante cheio. Ao nosso lado estava uma enorme tenda com uma famíla de franceses de aspecto muito duvidoso: dormiam de dia e de noite andavam não sei onde...A tia Alice dizia que eles tinham ar de larápios...Nunca se chegou a saber!
Ao fim do segundo dia, dois ingleses montaram a tenda ao nosso lado, já noite. Não se calavam, fartaram-se de cozinhar e comer. Um cheirinho a fritos entrava pela tenda e aumentava a nossa fome, por não podermos dormir.
Quando tudo ficou quieto, finalmente adormecemos.
Fomos acordados por uns ruídos estranhos que vinham da tenda dos ingleses: os fritos já estavam a fazer das suas e os senhores não tiveram problema nenhum em livrarem-se dos gases acumulados e expelidos com enorme ruído! Pelos vistos deviam até ter algum orgulho em mostrar que estavam vivos e de boa saúde...
Do outro lado, os franceses também não se fizeram rogados, amenizando os seus problemas de flatulência, com ruídos algo parecidos.
Só nós, portugueses envergonhados, não respondíamos à altura! Quase morremos gaseados...
Continuámos incapazes de nos livrar, com à vontade, dos gases acumulados pelas muitas horas sentados em viagem, pela quantidade de pão ingerido sob a forma de sandes à laia de almoço e algumas bebidas gasosas...
Ainda hoje não sei como nessas viagens nunca levantei vôo.
Tal qual a cantiga: - Sobe, sobe, balão sobe, vai dizer àquela estrela...


29 janeiro, 2006

Conversas com o meu espelho II


Woman looking at a mirror - Faith Ringgold

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O pescoço despencou de vez. Não tarda que pareças um perú bêbado, pronto para a ceia de Natal. Acabaram-se as alcinhas, as saias curtas, os saltos altos. Acabaram-se as noites longas, porque as olheiras deixaram de ser interessantes para se tornarem deprimentes. Não, não vás buscar os óculos. não me obrigues a mostrar-te que estás velha. Ah, sim? E depois? Fui nova e bonita durante tantos anos que agora me parece justo pagar este tributo à vida que me favoreceu. Iria odiar ver a minha boca inchada de colagénio, as bochechas paralisadas de botox, as orelhas arrepanhadas da cirurgia, a testa cada vez mais alta e mais oca. A minha ideia é que Deus dá beleza às mulheres e aos homens para se atraírem mutuamente e cumprirem o seu plano universal de reprodução da espécie. Portanto, pele lisa e luminosa, lábios cheios, cintura fina, maminhas empinadas, cabelos longos e macios. E nos homens, tudo o quanto apreciamos e nos faz inconscientemente escolhê-los para pais dos nossos filhos, assegurando uma genética cinco estrelas. É assim com todos os animais: as fêmeas escolhem os mais belos, os mais fortes, os mais capazes. Atraímo-nos e reproduzimo-nos. A nossa função biológica é cumprida e termina aí. È justo que depois disso queiramos ter boa aparência. Mas não temos de ser novas e sobretudo não precisamos de parecer novas. Embirro com o conceito de parecer. Uma coisa é ou não é. Uma pessoa é ou não é. Prefiro ser.
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Conversas com o meu espelho - Rosa Lobato Faria

Conversas com o meu espelho I



Woman in a Mirror - Joan Miró

Não, não vás buscar os óculos, disse o meu espelho, não é preciso ver as mazelas em pormenor. Mesmo a olho nu, com essa visão que de dia a dia te desfoca o mundo, consegues enxergar aquelas estúpidas rugazinhas verticais por cima da boca, os espanejados pés-de-galinha, as desgraciosas pequenas manchas que aqui e ali espreitam na pele. As pálpebras, pesadotas, vão-te escondendo os olhos que costumavam ser os faróis da tua cara, e, horror dos horrores, nascem-te pêlos no queixo porque te faltam os estrogênios ou lá o que é. Em compensação, as sobrancelhas vão ficando ralas. Por que razão os pêlos não nascem onde fazem falta é uma maldade da Natureza.
………………………………………………………………………………
As rugas? Deixa-as estar. È sinal que ri, que chorei, de que pensei, de que vivi. Estou velha? E depois? A única razão para ser velho é ter-se sido novo e isso fui e tu sabe-lo melhor que ninguém. Foi bom, mas não quero mais. Não troco um belo romance, uma sonata de Beethoven, um quadro de Vermeer, por uma ruga a menos.

As minhas mãos têm veias azuis, os meus romances têm asas, os meus netos têm sorrisos lindos.
Espelho meu, espelho meu, haverá outra mais abençoada do que eu?

Conversas com o meu espelho - Por Rosa Lobato Faria, escritora

28 janeiro, 2006

Mulheres


Woman with calla lillies - Naoko


Elas sorriem quando querem gritar
Elas cantam quando querem chorar
Elas choram quando estão felizes
E riem quando estão nervosas

Elas lutam por aquilo em que acreditam
Elas revoltam-se contra a injustiça
Elas não aceitam um "não" como resposta
quando acreditam que existe uma melhor solução

Elas andam sem sapatos novos
para que os seus filhos os possam ter
Elas vão ao médico com uma amiga assustada
Elas amam incondicionalmente

Elas choram quando os filhos adoecem
e alegram-se quando os filhos ganham prémios
Elas ficam contentes
quando sabem de um aniversário ou um novo casamento

Mulheres - Pablo Neruda

Recordar Salzburgo










Por falar em Mozart, Salzburgo, a sua terra natal, a sua música, quero recordar outro filho desta cidade maravilhosa: Herbert Von Karajan, o grande maestro, que conduziu primorosamente as suas peças musicais.
A casa onde nasceu fica muito perto da casa onde nasceu Mozart, do outro lado do rio.
Deixo-vos imagens que ilustram bem o que descrevi no post anterior.
Linda, não é?
Quando voltarei?


Mozart, ainda vou a tempo?




Pois ontem fêz 250 anos que Mozart, o grande génio da música clássica, nasceu. Foi em Salzburg, aqui..





E eu já lá estive!

Adoro Salzburgo: já lá estive duas vezes e quero voltar.
Não sei qual a magia da cidade, sei que é linda, respira música, harmonia, equilíbrio...
Passear nas suas ruas estreitinhas ao fim da tarde, ir até ao rio, atravessar para o outro lado e ver a cidade emoldurada por um morro em toda a volta, a despertar para a noite.
Assistir à entrada das pessoas que vão aos concertos, é por si só um espectáculo: saiem dos hotéis, vestidos a rigor e fazem gala de ir a pé até à sala de concertos, mostrando os belos vestidos compridos e smokings a preceito... E nós, pobres campistas, olhando para eles e a pensar quando poderemos um dia assistir a dois ou três concertos numa das famosas temporadas de música de Salzburgo? Pouco provável, os vestidos chegariam amassados demais ...

Parabéns Mozart!


27 janeiro, 2006

Três amigas


Tchin - Nicole Avezard


Resolvemos fazer um fim de semana juntas e experimentar um pacote de tratamentos num spa da Galiza.
Três mulheres, a conta certa: três a conta que Deus fêz...
Uma ao volante, outra de pendura (eu) e a outra a rezar, para que tudo corresse bem!
E lá fomos: o meu marido fêz beicinho, o marido da outra queria ir, o terceiro não existia...
A ilha de La Toja ( A Toxa) foi o nosso destino e o Hotel Louxo o nosso poiso. Ficámos as três no mesmo quarto, o que nos fêz recordar os tempos de meninas e moças em camaratas de raparigas...Um festival!
O pior foi cumprir o esquema de tratamentos: o tempo era pouco para passear, correr seca e meca nos saldos, dar uma volta de barco até aos viveiros de mexilhões e ostras, fazer caminhadas para abater uns quilitos a mais! Só duas de nós precisavam, a outra era de uma magreza de fazer inveja...Punha-nos sem folgo, estafadinhas de todo, dada a sua ligeireza, quase esvoaçante!
À noite fomos a Sanxenxo, sentámo-nos numa esplanada e comemos crépes com gelado; montes de gente a circular e um calor de ananases!
Levámos um raspanete da terapeuta, que nos queria convencer que tínhamos de estar calmas, serenas, para aproveitar ao máximo os tratamentos...
Qual quê, estávamos imparáveis!
Combinámos todos os anos fazer uma saída só com mulheres, por várias razões:
- sabemos o que queremos
- não chateamos o próximo
- compramos sem ouvir remoques
- nunca nos cansamos
- nunca temos sono
- sabemos divertir-nos

E esta , hein?

Vôo sem pássaro dentro


Living the Dream - Marta Wiley

A poesia não é voz - é uma inflexão.

Dizer, diz tudo a prosa. No verso

nada se acrescenta a nada, somente

um jeito impalpável dá figura

ao sonho de cada um, expectativa

das formas por achar. No verso nasce

à palavra uma verdade que não acha

entre os escombros da prosa o seu caminho.

E aos homens um sentido que não há

nos gestos nem nas coisas:


vôo sem pássaro dentro.


Aurora - Adolfo Casais Monteiro



26 janeiro, 2006

Porque não?



Felicity Wishes I - Emma Thomson


Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

DAS UTOPIAS, Espelho Mágico - Mario Quintana

Trovoadas!

Não sei se terei alguma costela de gaulesa...
Mas a verdade é que tenho pavor que me caia algum raio na cabeça!
Ainda hoje tenho medo das trovoadas!Não, não é respeito...como muita gente diz!
Apanhámos algumas tempestades em pleno Agosto, quando acampados na zona dos Pirinéus e Alpes suiços e austríacos.
Era matemático o meu procedimento relativamente às trovoadas: punha todos fora da tenda, enfiávamo-nos dentro do carro, até a dita passar...
Já se estão a rir, a imaginar a cena...!!! Abafados, sem abrir as janelas...
Eu explico a razão deste traumazito...
O meu pai, electricista de profissão, procedia a certos cuidados quando rebentavam as enormes trovoadas em África, vindas de todos os lados:
- tirava a aliança do dedo
- desligava o quadro eléctrico
- fechava as cortinas e estores
- ficava ainda mais branco...de tensão nervosa....
- ninguém se podia rir....
Quando resolveu colocar um pára-raios, não o pôs na casa, mas sim no poste dos correios, em frente!!!
Todo este receio passou para mim e então fazia o seguinte:
- o quadro era desligado
- ia acordar as miúdas e sentávamo-nos as três no chão do corredor ( o local mais interior da casa)...até passar!!!
Conclusão:
Precisamos ter muita atenção às nossas reacções como adultos.
Serão inconscientemente imitadas pelos nossos filhos....!!!!!

Massagens II

Resolvi voltar, desta vez para fazer também massagem ao corpo. Fomos as três para um reservado, a minha filha, a minha amiga e eu e preparámo-nos para usufruir de uma horita de relax….Já deitada de bruços na marquesa, vi a massagista que me calhou…O meu pobre coração, começou a bater descompassadamente…
Era uma autêntica lutadora de Sumo!!!!
Ainda por cima com cara de poucos amigos, já que era um pouco cedo demais para começar o dia. Elas trabalham toda a noite…por turnos, claro!!!!!
Encomendei a alma ao criador e enchi-me de coragem para o embate….Deitou-me as mãos ao corpo com uma energia de leoa, amassando-me ao ponto de me fazer prender a respiração de dor e incómodo….As minhas companheiras de infortúnio não se queixavam, sinal que estavam satisfeitas com as respectivas massagistas….Perguntavam-me preocupadas se eu estava bem, mas ela com uma sapatada nas costas, reduziu-me ao silêncio duplamente penoso…Passado um pouco, resolveu dizer, em cantonês, que eu estava num estado lastimoso e precisava de uma massagem mais forte…! A taquicardia, a claustrofobia, etc, começaram a fazer das suas….Eu só dizia que ela me queria matar: ou porque era portuguesa….ou porque a tinha acordado cedo demais….Queria vingar-se, de certeza!!!!!Assim, levou-me para o reservado ao lado ; deitei-me de barriga para baixo, com a cabecita enfiada num buraco, que só tinha um palmo de ar e ela, com o seu peso pluma, sentou-se em cima de mim….e depois pôs-se em pé nas minhas costas….Julguei que morria!!!! O ar não era muito… Ela, pendurada numas barras, ia-me calcando, deixando-me sem escolha….Nem fugir, nem bulir…A minha filha, do outro lado, não se cansava de perguntar se eu estava bem…Ao ouvir a minha voz apagada, resolveu vir socorrer-me! Eu só dizia:
- Não consigo…(respirar)…..não aguento….Por fim, a chinesa desistiu, para meu alívio…Passou então a massajar-me com óleo, não abrandando o ritmo….O melhor da festa, foi quando retirou o banco debaixo da cama…Este estava a obstruir o buraco da cama….Finalmente vi o chão do quarto, pude respirar fundo e senti-me um pouco melhor!!!No dia seguinte estava toda dorida, com nódoas negras...
Na China, massagens, nunca mais!

25 janeiro, 2006

Massagens I

Costuma dizer-se, em Roma, como os romanos, e agora, na China, como os chineses...

Resolvi assim experimentar algumas delícias que o Oriente oferece e, levada por uma amiga recente, submeti-me a uma hora de massagens nos pés, também denominada muito cientificamente Reflexologia! Alertada pela minha filha, já experimentada nestas coisas, foi-me dito que não era nada agradável...antes pelo contrário! Teimosa, lá fui, numa tarde de domingo, já que naquela terra trabalha-se muito, dia e noite, aos feriados e domingos!
Na rua, um letreiro com um pé enorme indicava ao que ia. Subi para o 1º andar, depois da minha amiga explicar o que pretendíamos. Em cima, uma sala enorme com cadeirões estofados e banquetas para os pés, numa penumbra. Dois chineses dormiam profundamente, ao mesmo tempo que lhes massajavam os pés com muita paciência.
A massagem acabou por ser agradável, usando o travão cantonês man-man, ou seja devagar, devagarinho, adoçado por uns sorrisos pedindo clemência, lá fui conseguindo que a massagista que me calhara fizesse o seu trabalho sem me magoar...
Fiquei convencida!

24 janeiro, 2006

Serenidade


Woman with sunflowers - Simon Silva


Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.

Vem, serenidade!
faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.

Raul de Carvalho

Orgulho e Preconceito


Terminei os posts que versavam sobre o tema
Gosto de...

Cheguei há pouco do cinema; fui ver o filme Orgulho e Preconceito.
Gostei imenso, saí de coração cheio!
Divertido, romântico, com uma fotografia belíssima, um ritmo que nos prende continuamente a atenção, interpretações excelentes!
Donald Sutherland
(o pai) e Keira Knightley ( a filha Lizzie) estão espectaculares...
Vejam algumas cenas:




Vale a pena ver!

23 janeiro, 2006

Vinicius



Sunflower - Georgia O'Keefe


Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu

O girassol
Fica um gentil Carrossel.


O girassol é o carrossel das abelhas.

Pretas e vermelhas
Ali ficam elas
Brincando, fedelhas
Nas pétalas amarelas.

— Vamos brincar de carrossel, pessoal?

— "Roda, roda, carrossel
Roda, roda, rodador
Vai rodando, dando mel
Vai rodando, dando flor".

— Marimbondo não pode ir que é bicho mau!
— Besouro é muito pesado!
— Borboleta tem que fingir de borboleta na entrada!
— Dona Cigarra fica tocando seu realejo!

— "Roda, roda, carrossel
Gira, gira, girassol
Redondinho como o céu
Marelinho como o sol".

E o girassol vai girando dia afora . . .
O girassol é o carrossel das abelhas.

O Girassol
(poemas para crianças
)
Vinicius de Moraes



Viajar na net

Foi para mim uma descoberta sempre crescente. E continua, por isso estou aqui.
Além do encontro com colegas e amigos do tempo do liceu e universidade, permitiu-me reatar amizades antigas, torná-las próximas, fazer novos amigos, convivendo dum modo salutar e muito agradável com todos eles.
Foi complementada esta viagem de afectos, com imagens de terras distantes onde estão as minhas raízes, que me deleitam e obrigam a sonhar acordada.
O Google Earth permitiu-me viajar pelo mundo inteiro: fui a Paris, à muralha da China, a Macau, ao Brasil, a Angola, a Moçambique....

Voei por todo o lado, uma sensação fantástica!

O meu refúgio é aqui...

Não ficámos mais perto?

22 janeiro, 2006

Viajar


Castelo de Sirmione Foto: G Paolo Zordan

Fomos a Itália, de tenda às costas como sempre, ficando acampados no Lago Garda. Nós e mais umas centenas!
O meu marido e a minha filha mais nova, que tinha alinhado nessa viagem, deitavam-se cedo, cansados das passeatas do dia. Mas a tia Alice e eu queríamos continuar a farra e decidimos ir a pé ao castelo de Sirmione, que ficava a cerca de 2,5 km do camping.
Metemo-nos a caminho e ficámos extasiadas com tudo o que vimos: ruas estreitinhas a fervilhar de gente, lojinhas tentadoras e por fim uma praça enorme com esplanadas, velas nas mesas a brilhar e um italiano vero a cantar primorosamente!
Sentámo-nos num banco junto à água transparente iluminada por vários candeeiros. Esquecemo-nos do tempo...
Quando demos por nós, era quase uma da manhã e eu dizia muito calma:
- Não se preocupe, tia, isto é tudo gente do campismo, não vamos regressar sozinhas...
De regresso, as pessoas foram diminuindo, distribuindo-se pelos hotéis e diversas estalagens ao longo da rua principal e ficámos só as duas, com o barulho dos nossos passos...
Itália, assaltos, roubalheira, sabíamos disso tudo; começámos a ficar preocupadas. Diria que voámos até à tenda, encostadas uma à outra, não sem antes passar por dois rapazes com ar muito duvidoso e em frente do cemitério...
Ainda hoje nos recordamos desta façanha e rimos a bom rir.
Mas aprendemos a lição e deixámo-nos de aventuras arriscadas!

21 janeiro, 2006

Van Gogh



O Semeador - Van Gogh


Van Gogh é O Génio.
Há trinta e cinco anos, na minha viagem de fim de curso, visitei o Museu de Arte Moderna de Amesterdão, mais tarde chamado Museu Van Gogh, onde se encontra a maior parte da colecção de quadros deste pintor.
Esta foi a obra que me fascinou...Deformação profissional? Talvez...

Um doce olhar


Face de femme - Henri Matisse

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

Quando fores velha, William Butler Yeats

Trouxas de ovos

Fazem parte da doçaria das Caldas de Rainha.

São doces que chegue...
São caras p'ra burro...
Olho para elas,
olham para mim...
Como a primeira,
vou ao céu e venho,
peço a segunda e páro...
quando olho para as minhas ancas!


Mas vale a pena...
Trouxa era eu se não as comesse!


Tomar o pequeno-almoço na cama


Femme se reposant - Henri Matisse

Às vezes um pequeno gesto faz a diferença...
É sábado, ainda estou ensonada, sinto un passos pesados no corredor. Sento-me na cama, ajeito a roupa, componho-me o melhor possível.
É o Fernando que me traz o pequeno-almoço: apenas um chá de limonete (lucia-lima) ou verde e um pãozinho com manteiga.
- Obrigada, Fernando! - com um grande sorriso a acompanhar...
E saboreio o parco petisco, evitando olhar para o espelho enorme em frente, para não ver o cabelo meio despenteado, as olheiras, apesar das noites sempre bem dormidas.
Não, isto não é um comportamento menos macho, uma subserviência à mulher ou sinal de vontade ou espírito fracos...
Antes pelo contrário: mostra nobreza de carácter, gentileza, generosidade, apreço pela sua companheira fiel de tantos anos que sempre assumiu praticamente todas as tarefas de dona de casa e mãe...
Era assim na minha geração e felizmente já não se passa mais nas gerações mais recentes. Agora há divisão de tarefas em casa e nos cuidados e educação das crianças. Ainda bem, para que as jovens mães possam ter os seus tempos de lazer: ler, ir ao cinema, estar com as amigas, trabalhar fora de horas, ter formação pós laboral.
Em alguns fins de semana e feriados costumo ser alvo deste mimo por parte do meu marido.
Ele sabe que eu gosto... e eu sei que mereço!


20 janeiro, 2006

Sonhar acordada


Dream - Henri Rousseau


"A divagação é o domingo do pensamento"

Henri Amiel - Citador

Ser livre



Day and Night - E. C. Escher



Tenho asas para voar...
Não faço tudo o que quero
mas o que faço é quando quero.


Ser



Luna - Oleg

Eu não quero enriquecer como os demais
Pensando em tudo o que me apraz comprar;
E não quero só bens materiais
Quando outros mais posso amealhar.

Trincando petiscos preciosos
De risos enchendo serões quentes,
Eu quero os meus amigos ansiosos
Em tornar estes momentos mais frequentes.

Eu quero enriquecer ao dar a mão
Àquele que ao meu lado ma estenda,
Sem nada dar em troca, só um olhar
Que docemente pede que o entenda.

Pois riqueza não há maior que esta,
De dar o coração e receber,
Afeição, ternura manifesta
Que nunca é demais oferecer.



Rodin II




The Kiss - Auguste Rodin

Rodin




Catedral - Auguste Rodin


19 janeiro, 2006

Pôr-do-sol





Paradise Sunset - Diane Romanello


Pessoa



Clair de Lune II - Ona


Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento...

Não me importo com as rimas, Alberto Caeiro

Panquecas com chantilly



A Bretanha é a terra dos crépes, em português, panquecas. Não sei se a Suzette era oriunda daquelas bandas ou se foi ela que as inventou. Não são aquelas panquecas tipo roda de carro americano, não! São fininhas, doces ou salgadas, uma delícia!
Durante alguns anos fiz campismo, não por opção, mas para conhecer mundo, ou melhor a Europa além Pirinéus. Tive várias tendas, de vários tipos e algumas ainda as conservo. Porque não desisti do campismo! Não desisto facilmente quando tenho um objectivo!
Numa dessas viagens, com o Fernando e a tia Alice, nossa companheira ideal, resolvemos passear pela Bretanha. Eu costumava falar dos famosos crépes à tia Alice e havia nela uma certa expectativa de os provar...
Estacionámos o carro à beira-mar, cansados da tirada desde a região do Loire, onde passámos alguns dias em suave descanso. Vimos uma barraquinha de crépes e lá fomos alvoroçadas!
Quando a tia Alice deu a primeira dentada olhou para mim e exclamou:
- Ò Belinha, os teus crépes são muito melhores do que estes!!!! Nem de perto!!!!
Fiquei vaidosa e ainda hoje estou! Porque as minhas panquecas são, de facto, boas!
Raramente acreditamos no nosso valor...nem que seja para fazer umas simples panquecas!

Aí vai a receita que, se não me engano, é do Chefe Silva.

Massa:

120 grs de farinha
100 grs de açucar
50 grs de manteiga derretida
4 ovos
Água q. b.

Mistura-se tudo, excepto a água, que se vai deitando no fim, até a massa ficar um pouco líquida.
Unta-se uma frigideira anti-aderente com margarina ; deitam-se colheradas de massa, virando dum lado e doutro, até aloirarem. Cheguei a atirá-las ao ar ...!!!!

Recheio:

O que se gostar: simples, mel, açúcar com canela, açucar com Vinho do Porto, chantilly, gelado, chocolate....

Ora aqui estão elas....



Bom proveito!


Olhar o mar




Beach Babes - Paul Greenwood


Tem mais beleza ainda partilhar esse olhar...


18 janeiro, 2006

Natal em família


Mickey's Christmas Carol - Walt Disney

Gosto muito do Natal em família. Para o ano queria passá-lo com a minha neta.
A razão é simples : o Natal sem crianças não tem porquê!

Nadar em águas quentes



Just a dance - Gerry Baptist

Nadar é um termo excessivo para o que faço quando mergulho no mar...
Chapisco, boio com toda a facilidade (...), nado de costas, faço algumas tentativas, bruços de cabecita fora de água, duas braçadas de crawl vergonhoso...Porque nadar, propriamente, não é! E tenho desgosto, acreditem! Quando, por algum tempo, dei aulas no liceu de Viseu, fui para as aulas de natação. Saía das aulas a correr e lá me esforçava...
Não emagreci com o exercício, porque chegava a casa com fome de leão...

Não aprendi muito mais do que sabia...

A única vantagem que tive em andar lá era ter aquele professor. Um borracho!

Os meus alunos do 10º ano, que eram uns amores, fizeram uns
jograis para o meu aniversário.
Na letra S disseram:
- Sortudo...O professor de natação!
Eu tinha apenas trinta anos....mas a sortuda era eu!

Mochos


Le Hibou - Pablo Picasso

Não me perguntem porquê. Não sei mesmo porque gosto de mochos. E quanto mais pequenos, mais graça lhes acho ...
Não sou de coleccionar, a não ser maus hábitos. Mas durante muitos anos coleccionei mochos. De todos os materiais, formas e feitios: madeira, metal, loiça, barro, cristal, renda de Bruxelas...Quase todos foram oferecidos, trazidos dos sete cantos do mundo!
Também costuma andar por aqui um mochinho de verdade. Descansa nas árvores do jardim e pia muito alto. Costumo ir espreitá-lo...
Há quem diga que dá azar. Outros, que é o símbolo da Sabedoria.
Prefiro a segunda versão e tê-lo por companhia!

17 janeiro, 2006

Matisse



Pink Nude - Henri Matisse

Gosto dos Fauves.
Henri Matisse é um dos pintores mais representativos do movimento denominado Fauvismo, reunindo pintores como Georges Braque, Andre Derain, Georges Roualt, Kees van Dongen e Raoul Dufy.

"Fauvismo
é o nome dado à tendência estética na pintura que buscou explorar ao máximo a expressividade das cores na representação pictórica.
Aquela designação, na verdade, teve origem a partir das observações corrosivas do crítico de arte Louis Vauxcelles, após ter visitado uma mostra de pinturas de vários artistas, entre eles Henry Matisse. Vauxcelles utilizou a expressão “Les Fauves” (as feras) referindo-se aos artistas."

Gosto especialmente dos trabalhos que criou, com idade avançada: as colagens, sendo destas, Os Nús Azuis , os que me tocam mais, na sua simplicidade e forma.

Luar

Dance Me to the End of Love - Jack Vettriano


16 janeiro, 2006

Juntar os amigos




La Terrasse - Bernard Ott

Não existem desconhecidos, apenas amigos que ainda não conhecemos.
(David Baird)

Inovar


Cultura da Inovação

Liberta o Homem, e Ele Criará

Eu hei-de esculpir o futuro ao jeito do criador que extrai a obra de mármore a golpes de cinzel. E caem uma a uma as escamas que escondiam o rosto do deus. E os outros dirão: Este mármore continha este deus. Ele o que fez foi encontrá-lo. E o gesto dele não passava de um meio. Mas eu cá digo que ele não calculava, ele forjava a pedra. O sorriso do rosto está muito longe de ser feito de suor, de faíscas, de golpes de cinzel e de mármore. O sorriso não é da pedra, mas sim do criador. Liberta o homem, e ele criará.


Antoine de Saint-Exupéry, in 'Cidadela'

Jacinta


Jacinta (Hyacinth) é a minha personagem preferida da Fantasia de Walt Disney.
Redondinha e leve como uma pluma, dança um Pas de Deux com o seu companheiro crocodilo, que nem se apercebe do super-peso da Jacinta, tão graciosa é.
Também na vida assim acontece.
Quando os pares já perderam a frescura, apesar dos muitos esforços empreendidos, as marcas do tempo vão aparecendo gradualmente.
Algumas piruetas serão, talvez, já impossíveis de realizar...
Mesmo assim, o Pas de Deux é inspirador, com novos passos de dança que se experimentam, mais adequados à mudança que os corpos dos dançarinos sofrem com o decorrer dos tempos.